HIV: nova variante do vírus o deixa mais contagioso e virulento

HIV | Nova Variante

Saiba sobre o cenário atual do HIV, suas mutações genéticas e as diferenças entre portar HIV e ter AIDS.

A palavra ainda assusta e o falar sobre o assunto ainda é permeado por preconceitos e tabu. Mas o HIV é uma realidade, uma doença que afeta, atualmente, em todo o mundo, 38 milhões de pessoas, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). A presença do vírus do HIV é considerada epidemia há 40 anos e a preocupação que se levanta agora é em relação ao surgimento de mecanismos de mutação genética diante do esquema de tratamento antirretroviral.

No Brasil, em 2020, foram registrados 32.701 casos de pessoas com HIV. E, diante dessas novas descobertas de especialistas em relação ao vírus, surge um sinal vermelho de alerta importante para toda população e para os órgãos sanitários mundiais. Então, para entender melhor do que se trata essa mutação genética e a mudança do comportamento do vírus na resposta ao tratamento, acompanhe a leitura deste artigo que preparamos.

Portar o vírus HIV significa ter AIDS? 

Antes de falar sobre a mutação genética recém-descoberta do vírus HIV, é importante esclarecermos conceitos que algumas vezes são confundidos quando o assunto é abordado. 

Entre as dúvidas que surgem está se uma pessoa pode portar o vírus do HIV e não ter AIDS. A resposta é sim. O acompanhamento médico, a análise periódica de exames e uso de medicamentos do tipo antirretrovirais (comumente chamados de “coquetel”) podem reduzir o risco de uma pessoa portadora do vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) desenvolver a doença do tipo Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). 

E é fato que, há alguns anos, temos visto o aumento de pesquisas clínicas que relacionam a resposta terapêutica de medicações da classe do tipo antirretrovirais ao controle da replicação do vírus do HIV. No entanto, o que temos recentemente são notícias que vão na contramão desse caminho que estava sendo trilhado. Entenda o motivo a seguir. 

Mutação genética do vírus HIV

Ao redor do mundo, pesquisadores já vinham percebendo o surgimento de mecanismos de mutação genética do vírus do HIV em relação ao tratamento antirretroviral. O primeiro mecanismo que chamou a atenção foi estudado em conjunto, por Brasil e Portugal, e descobriu-se um mecanismo de mutação denominado K65R.

Foi na Universidade de Minho, em Portugal, que ocorreu a pesquisa clínica na qual foram analisadas 20 mil sequências genéticas de pacientes soropositivos em tratamento. Os resultados mostraram que, em 2008, a taxa de mutação genética em pacientes soropositivos havia sido de 2,23%, já em 2017, o mesmo dado foi coletado e o resultado foi alarmante: uma taxa de 12,11%.

Após alguns anos do descobrimento de K65R, pesquisadores e médicos especialistas passaram a discutir, de forma ampla, o manejo do protocolo clínico utilizado para a escolha de antirretrovirais, já que, no Brasil, a primeira droga de escolha seria a Zidovudina, que, no entanto, foi substituída pelo sistema de saúde pelo medicamento chamado Tenofovir.

Diante disso, muitos especialistas começaram a se fazer perguntas como: essa escolha de droga pode ter impactado no perfil de resistência ao Tenofovir? Teríamos pacientes soropositivos respondendo ainda ao tratamento? Teríamos mais óbitos por falência terapêutica? São questões que assolaram os cientistas e que despertam para novos estudos. 

Nova variante do HIV em Amsterdã

Para agravar ainda mais o cenário do HIV, em fevereiro deste ano, em Amsterdã, o vírus voltou ao centro das atenções. A renomada revista científica, Science, publicou uma pesquisa feita pela equipe do Dr.Wymant, na qual foi identificada uma variante associada ao HIV. Esta variante já teria surgido, durante os anos 90, antes mesmo de tratamentos altamente eficazes, mas agora a mesma teria se tornado mais virulenta e agressiva.

Na ocasião, a equipe do Dr. Wymant esclareceu que o HIV tem alguns subtipos fortemente relacionados à localidade dos pacientes. Por exemplo, na África, os subtipos de HIV mais encontrados são o A, C e D. Já na Europa e no Brasil, o mais encontrado é o subtipo B. 

Dentro desses subtipos existem ramificações de variantes que são normais de serem encontradas, porém, o que não é comum é encontrar uma variante agressiva que ocasiona, rapidamente, por exemplo, a piora clínica de um paciente em tratamento de HIV.

Desse modo, a preocupação inicial dentro da pesquisa do Dr.Wymant era a de descobrir um caso de emergência pública na qual uma variante pudesse ter as propriedades de alta virulência, alta transmissibilidade e resistência ao tratamento. E foi, justamente, como resultado do estudo a descoberta  de uma variante com alta virulência e alta transmissibilidade.

Essa pesquisa também possibilitou observar que, no momento do diagnóstico, antes do tratamento, pessoas com uma variante do tipo B apresentaram uma carga viral de 3,5 a 5,5 vezes maior do que uma pessoa com outro tipo de HIV.

Para deixar tudo ainda mais crítico, observou-se que o declínio abrupto das células CD4 (células do sistema imunológico, linfócitos, e o principal alvo do vírus HIV) foi duas vezes mais rápido, deixando o indivíduo em uma situação de alto risco e de maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de AIDS.

A conclusão foi que, infelizmente, o desenvolvimento da variante foi resultado de mais mutações acontecendo ao longo do tempo. Sendo assim, é fundamental que os pacientes sejam diagnosticados precocemente para o início o quanto antes do tratamento. 

Por que isso foi descoberto somente agora? 

É sabido que pesquisas vêm sendo feitas há anos, porém, o recurso baseado em mapeamento genético, infelizmente, tem um altíssimo custo. É preciso destacar que, em 2014, foi criado o projeto BEEHIVE, que tem como objetivo o monitoramento da influência da genética nas infecções pelo HIV,  acompanhando, assim, a saúde de pacientes em países da Europa e em Uganda. 

Logo no início do projeto, os pesquisadores detectaram 17 indivíduos com uma carga viral atipicamente alta e, ao longo da evolução da pesquisa, detectaram uma nova variante. 

Casos de HIV no Brasil e análise genética 

Para finalizar, vale destacar os casos de HIV no Brasil. ​​Atualmente, 694 mil pessoas estão em tratamento para a doença e, só no ano passado, 45 mil novos pacientes iniciaram a terapia antirretroviral. 

Como falamos anteriormente, as análises genéticas são extremamente caras, porém, pesquisadores têm recomendado que os pacientes sejam submetidos à genotipagem universal. Ou seja, que todo caso diagnosticado com HIV seja geneticamente analisado para que, a partir disso, possa ser escolhido o melhor tratamento. 

Hoje, portadores analisados geneticamente são somente aqueles que têm falha terapêutica por pelo menos seis meses de tratamento e os casos de exceções que são avaliadas pelo serviço médico responsável.

Esperamos que este artigo tenha sido útil para que você possa compreender melhor o cenário atual do vírus HIV e a importância de se falar sobre o tema para garantir melhores condições de vida aos pacientes. 

Leia também