Doença de Chagas: é possível ocorrer transmissão por via oral? 

Doença de Chagas

Saiba mais sobre a Doença de Chagas e suas formas de transmissão

Uma picada de inseto, uma coceira e uma pessoa pode ser contaminada pela Doença de Chagas. Trata-se de uma doença bastante conhecida no Brasil que é transmitida, principalmente, pelo mosquito “barbeiro” e seu agente causador é um protozoário denominado Trypanosoma cruzi. Para promover a conscientização e a prevenção à doença, em 14 de abril foi celebrado o dia mundial do combate à Doença de Chagas.  

Na ocasião, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) fez um pedido aos países para que intensifiquem os esforços para garantir o diagnóstico de todos os casos suspeitos, oferecendo, assim, condutas de tratamento para evitar complicações clínicas nos pacientes. Estima-se que, atualmente, 70% das pessoas infectadas não sabem que são portadoras de  uma doença grave. 

Neste sentido, o foco da campanha de 2022 está na detecção e notificação de todos os casos para que, de modo coletivo, possamos derrotar a Doença de Chagas. Para que você possa saber mais sobre esse mal bastante preocupante e sobre a transmissão via oral que vem ganhando destaque e gerando preocupação, preparamos este artigo.

Acompanhe e a leitura! 

Como ocorre a transmissão da Doença de Chagas?

Para começar, vamos entender melhor como a Doença de Chagas é transmitida. Temos aqui uma doença parasitária causada pelo microrganismo Trypanosoma cruzi e potencialmente fatal. A moléstia pode ser transmitida aos seres humanos das seguintes formas:

  • pelo contato com as fezes do inseto hospedeiro chamado barbeiro. Após a picada, ele elimina fezes e os protozoários contidos nelas podem entrar no organismo humano, quando há na feridas abertas ou machucados na pele;
  • por transfusão de sangue;
  • por transplante de órgãos;
  • pelo consumo de alimentos contaminados;
  • na gravidez (transmissão vertical) com predominância, hoje, em países não endêmicos.

Por que a transmissão oral é considerada preocupante?

Como vimos acima, a transmissão da Doença de Chagas pode ocorrer pelo consumo de alimentos contaminados, ou seja, por via oral. E, atualmente, casos agudos da doença estão se mostrando mais relacionados a esta forma de transmissão, por meio da ingestão de alimentos contendo as fezes do barbeiro. Por isso, a questão vem ganhando importância epidemiológica no Brasil, principalmente na Amazônia.

Em 2006, o Brasil recebeu certificação internacional por conseguir interromper a transmissão por meio do inseto. No entanto, segundo o Ministério da Saúde, entre 2010 e 2019, foram registrados casos agudos da Doença de Chagas na maioria dos estados brasileiros. Do total, cerca de 84% estão na região Norte.

Nesta região do País, as pessoas estão sendo contaminadas após ingerirem alimentos com os insetos ou com as fezes trituradas. O açaí, fruto típico do Pará e de outros estados da região Norte, onde há uma “febre de consumo”, foi um dos primeiros alimentos a ser identificado com a presença do Trypanosoma cruzi. Casos semelhantes podem estar associados também ao consumo de cana-de-açúcar e sucos de frutas.

Quando a transmissão da Doença de Chagas acontece por via oral, o protozoário é assimilado mais rapidamente pelo organismo, pois vai direto ao trato digestivo, causando, assim, sintomas mais graves. Em 2005, houve a identificação do Trypanosoma cruzi na cana-de-açúcar utilizada para fazer caldo, que contaminou e levou a óbito turistas em Florianópolis. 

Como é feito o diagnóstico?

Vamos agora entender como é feito o diagnóstico da Doença de Chagas. Por conta das limitações do teste de sorologia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que sejam realizados ao menos dois testes sorológicos com princípios distintos e, no caso de resultados conflitantes ou inconclusivos, o teste PCR pode ser aplicado em laboratórios de referência, como uma ferramenta diagnóstica complementar.

O teste de PCR é um teste que significa Polymerase Chain Reaction – ou reação em cadeia da polimerase. É também chamado de teste molecular, pois tem a função de detectar a presença do material genético de um patógeno, a exemplo do Trypanosoma cruzi, a partir da análise do DNA do paciente. 

Quais são os sinais e como são os sintomas da Doença de Chagas?

Importante saber que a Doença de Chagas se apresenta em dois estágios clínicos: aguda e crônica.

  • na fase aguda: a maioria das pessoas não apresenta nenhum sintoma. Quando os sintomas ocorrem, eles duram cerca de dois a quatro meses e podem incluir erupções de pele e nódulos inflamatórios, febre, dor de cabeça, gânglios linfáticos aumentados, náuseas, diarreia, vômito e dificuldade para respirar.
  • na fase crônica indeterminada:  após a fase aguda, os pacientes entram na chamada fase crônica indeterminada, que pode durar anos ou décadas. Os parasitas continuam presentes nos tecidos dos órgãos da pessoa contaminada, apesar da total ausência de sintomas. Nesta fase, o doente ainda pode transmitir a doença.
  • na crônica sintomática: para 30% a 40% das pessoas infectadas, a doença progride para um estágio final da fase crônica. Nesta etapa, a maioria pode sofrer danos cardíacos, que acabam, frequentemente, resultando em morte súbita ou insuficiência cardíaca progressiva. Em um número menor de pacientes, a doença causa o alargamento do trato e órgãos gastrintestinais e transtornos motores gastrintestinais.

E quais os desafios para o tratamento da Doença de Chagas?

Chegamos ao que é, sem dúvidas, a principal questão: como tratar da Doença de Chagas? Hoje, os órgãos de Saúde calculam que 1,9 a 4,6 milhões de pessoas convivem com a Doença de Chagas, o que representa 1% a 2,4% da população. A OMS estima entre 6 a 7 milhões o número de pessoas infectadas em todo o mundo, a maioria na América Latina. Além disso, mais de 65 milhões de pessoas estão sob risco da doença.

Apesar da alta proporção de pessoas infectadas, a doença crônica é pouco tratada no Brasil – menos de 1% dos casos são tratados. Cerca de 70% dos casos são assintomáticos e 30% sintomáticos, principalmente com lesões no coração, em vários estágios de gravidade. 

Dois fatores podem agravar ainda mais a doença cardíaca: a persistência do parasita e a exacerbação de resposta imune inflamatória no sítio da lesão, além do status de imunossupressão de pacientes transplantados e coinfectados T. cruzi/HIV. 

Então, diante desse cenário e dos atuais desafios, o Ministério da Saúde lança a campanha Chagas Hoje: Quantos Somos e Onde Estamos?, com o objetivo de ampliar o tratamento de pacientes que sofrem com a doença crônica.

Importante destacar que a Doença de Chagas, causada por um protozoário parasita e considerada endêmica em 21 países da América do Sul, afetando em especial as populações de baixa renda, é tida como uma doença negligenciada. Iniciativas voltadas para o cuidado e para prevenção carecem de investimentos em pesquisa e da atenção das indústrias farmacêuticas (para controle e produção de medicamentos contra a doença). 

No entanto, em meio ao caos, há uma boa notícia: o projeto “Integra Chagas Brasil”, feito em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde, será implantado em breve e irá oferecer acesso à detecção e ao tratamento da doença de Chagas no âmbito da atenção primária à saúde no Brasil. 

Neste sentido, serão aplicadas diferentes estratégias de diagnóstico, incluindo o uso da biologia molecular para detectar a forma congênita da doença, com o objetivo de monitorar o tratamento das mães infectadas e seus bebês. 

O projeto, que prevê a validação do primeiro kit de diagnóstico molecular da doença, produzido com insumos 100% nacionais, abrangerá seis municípios representativos das macrorregiões endêmicas brasileiras nos estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Pará.  

Outra iniciativa importante é a da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que está trabalhando para fortalecer a capacidade dos profissionais de saúde para diagnosticar e tratar a Doença de Chagas de maneira oportuna e apropriada em todas as populações suspeitas, particularmente em mulheres e recém-nascidos, com o intuito de eliminar a transmissão vertical desta e de três outras enfermidades. 

Esses esforços fazem parte de uma iniciativa da OPAS que busca eliminar a Doença de Chagas e outras doenças infecciosas até 2030.

Por fim, segundo a OPAS, os números que falam da Doença de Chagas nas Américas são:

  • 21 países da região nos quais a doença é endêmica;
  • cerca de 70 milhões de pessoas vivem sob risco de contrair Chagas na região pela picada de um inseto que transmite a doença;
  • 7 em cada 10 pessoas que têm Chagas desconhecem sua condição;
  • mais de 10 mil pessoas morrem a cada ano devido a complicações clínicas da doença;
  • quase 100% curável se tratada em seu estágio inicial e agudo;
  • entre 2% e 8% das gestantes infectadas com a Doença de Chagas podem transmiti-la aos seus bebês;
  • os 21 países endêmicos mantêm triagem universal de doadores de sangue;
  • 0,2% é o índice de prevalência média de doadores de banco de sangue detectados com Chagas na América Latina.

Bem, esperamos que as informações compartilhadas aqui no blog da Oleak sobre a Doença de Chagas tenham sido úteis para você. Lembre-se que saúde e higiene andam de mãos dadas e que o cuidado com o ambiente e com as pessoas é fundamental para vivermos mais e melhor. 

Até o próximo! 

Fontes:

Organização Pan Americana de Saúde (OPAS). Organização Mundial da Saúde (OMS).Dia Mundial da Saúde. Acessado em : 26 de abril de 2022. < https://www.paho.org/pt/campanhas/dia-mundial-da-doenca-chagas-2022 >

Fundação Oswaldo Cruz. Agência Fiocruz de Notícias.  Fiocruz apresenta projetos em evento do MS sobre Chagas. Acessado em: 25 de abril de 2022. <https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-apresenta-projetos-em-evento-do-ms-sobre-chagas

Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDI). Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas America Latina.  Acessado em : 26 de abril de 2022. < https://www.dndial.org/doencas/doenca-chagas/>
Agência Brasil (https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2021-04/am-consumo-de-acai-pode-ser-causa-de-infeccao-por-doenca-de-chagas).

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